Testes de autoconhecimento: quais valem a pena e como ler o resultado
Fazer testes de personalidade tornou-se um hábito comum e um hábito quase sempre desperdiçado. A pessoa responde a cinquenta perguntas, recebe quatro letras ou um número, sente um reconhecimento agradável durante dez minutos, e no dia seguinte tudo continua exatamente igual.
Duas coisas explicam quase todo o desperdício: escolher instrumentos que não medem nada com fiabilidade, e ler o resultado como se fosse um veredicto em vez de um dado. O teste em si costuma ser inocente. Este artigo dá os critérios para separar um instrumento sério de um quiz de revista, explica o que um resultado significa de facto, e propõe uma ordem para os testes que vale a pena fazer.
O que um teste faz, na realidade
Um bom teste de personalidade faz uma coisa só, e faz bem: coloca-te numa distribuição. Diz-te onde estás em relação a outras pessoas numa característica que foi definida com precisão suficiente para ser medida.
É por isto que a leitura correta de um resultado é sempre comparativa. Ser extrovertido significa estar acima da maioria numa escala de extroversão, e não pertencer a uma espécie diferente de quem está abaixo. A diferença entre estas duas leituras é a diferença entre usar o resultado e ficar preso a ele.
Um teste também não te diz o que fazer. Descreve tendências, com margem de erro, num momento da tua vida. A parte prática, aquilo que decides mudar, é trabalho teu e acontece depois.
Os quatro critérios que separam um instrumento de um quiz
Se só quiseres decorar uma coisa deste artigo, que seja esta lista. Aplica-a a qualquer teste antes de lhe dares crédito.
Consistência interna. As perguntas que supostamente medem a mesma coisa concordam entre si? Mede-se com um coeficiente, tipicamente o alfa de Cronbach, e valores acima de 0,70 são o mínimo aceitável. Instrumentos sérios publicam este número.
Estabilidade no tempo. Se responderes outra vez daqui a seis semanas, dá o mesmo? Chama-se fidelidade teste-reteste, e é aqui que muitos instrumentos populares falham de forma espetacular. Nos cinco grandes fatores, as correlações de reteste ao fim de anos costumam manter-se entre 0,70 e 0,80. Em tipologias que forçam categorias, uma parte substancial das pessoas muda de tipo em poucas semanas, e essa é a crítica mais consistente ao MBTI, que já tratámos no artigo sobre as 16 personalidades.
Validade. O resultado prevê alguma coisa fora do próprio teste? Comportamento observado, avaliações de quem te conhece, desempenho, saúde. Um instrumento que só se correlaciona consigo próprio está a medir a forma como respondes a questionários.
Normas de referência. Existe uma amostra grande contra a qual a tua pontuação é comparada, e essa amostra parece-se contigo? Uma pontuação sem norma é um número sem escala.
Um quinto critério, informal e revelador: o instrumento diz claramente o que não consegue fazer? Os sérios dizem. Os que vendem certezas costumam ter menos com que as sustentar.
O que fazer com o resultado
Aqui está o erro mais comum, e é fácil de corrigir.
Um resultado é um percentil, e não uma categoria. Se ficas no percentil 65 de extroversão, isso significa que respondes de forma mais extrovertida do que sessenta e cinco por cento da amostra. Fica perto do meio. A distância entre ti e alguém no percentil 55 é praticamente nada, e a linguagem categórica, que te chama extrovertido e chama introvertido à outra pessoa, apaga essa informação.
A segunda coisa a fazer é olhar para os extremos do teu perfil e ignorar o meio. Num resultado dos cinco grandes fatores, as duas dimensões onde estás muito alto ou muito baixo dizem alguma coisa sobre ti. As três que ficam entre trinta e setenta dizem que és, nessas, uma pessoa comum, o que é a resposta mais frequente e a menos comentada.
A terceira é procurar o que te desagrada. A parte do relatório que te faz pensar que não é bem assim é a que costuma ter mais valor, por uma razão simples: o que confirma o que já pensavas não acrescenta informação nenhuma.
O efeito Barnum, e como o testar em ti
Chama-se efeito Barnum à tendência para aceitarmos como precisas descrições vagas o suficiente para servirem a quase toda a gente. É o motor de metade da indústria dos testes, e reconhecê-lo é uma competência que se treina.
A demonstração clássica é fácil de repetir. Pega no teu relatório e sublinha as frases que só se aplicam a ti. Depois lê o relatório de um tipo diferente do teu e vê quantas dessas frases também te serviriam. A percentagem que sobrevive a este teste é o valor real do instrumento, e costuma ser bastante menor do que a impressão inicial.
Frases como precisas de tempo sozinho para recarregar, tens padrões elevados para ti próprio, ou por vezes duvidas das tuas decisões servem a praticamente qualquer adulto. Um bom relatório contém afirmações que podem estar erradas, e é isso que o torna útil.
Quais valem a pena, e por que ordem
Faz sentido começar pelos instrumentos com melhor suporte e ir descendo, em vez de começar pelos mais divertidos.
Primeiro, os cinco grandes fatores. É o modelo de personalidade com melhor suporte empírico e a base sobre a qual tudo o resto assenta. Dá-te cinco dimensões contínuas com normas e décadas de investigação. Escrevemos sobre como interpretar as tuas no artigo sobre o Big Five.
Depois, o estilo de apego. Muda mais coisas na vida prática do que qualquer outro resultado desta lista, porque descreve o que fazes quando a proximidade aperta. Os instrumentos usados em investigação medem duas dimensões contínuas, ansiedade e evitamento, e têm boas propriedades psicométricas. O território está descrito nos estilos de apego.
A seguir, os valores. O questionário de Schwartz coloca-te no círculo dos dez valores básicos e explica as tuas tensões internas melhor do que uma descrição de personalidade. É o que trabalhamos em valores pessoais.
Por fim, as tipologias. Eneagrama, MBTI, temperamentos. Têm suporte empírico mais fraco e uma qualidade que os outros não têm: dão vocabulário e são fáceis de partilhar com outra pessoa. Usa-os como linguagem para conversar sobre ti, com a consciência de que a categoria é uma simplificação.
A ordem importa porque o primeiro grupo te dá a régua com que lês o segundo. Fazer o eneagrama antes de saber onde estás nos cinco fatores costuma produzir uma identificação com o tipo que os dados não sustentam.
Os erros que estragam o resultado antes de o leres
Cinco coisas contaminam uma resposta, e todas são evitáveis.
Responder como gostavas de ser. A desejabilidade social é o maior contaminante destes instrumentos, e é quase sempre inconsciente. O antídoto é responder depressa, com a primeira reação, e pensar num contexto concreto em vez de na tua vida em abstrato.
Fazer o teste num estado atípico. Depois de uma semana péssima ou de uma notícia muito boa, algumas dimensões deslocam-se de forma temporária. Sono a menos é dos fatores que mais distorce.
Responder pensando no trabalho. Muitas pessoas respondem no registo profissional sem darem por isso, e o resultado descreve a versão de trabalho e não a pessoa. Se o instrumento não especificar o contexto, escolhe um e mantém-no.
Ler só o resumo. O título do perfil é a parte com menos informação do relatório. As pontuações dimensionais é que contam.
Não pedir a segunda opinião. A investigação sobre autoconhecimento distingue a componente interna, o que percebes de ti, da externa, o que percebes sobre como os outros te veem, e mostra que são quase independentes. Pedir a duas pessoas próximas que respondam ao mesmo instrumento a teu respeito é o exercício mais barato e mais revelador desta lista inteira.
Quando reavaliar
A personalidade muda devagar e muda. As pontuações nos cinco fatores deslocam-se ao longo da vida adulta com padrões conhecidos, e acontecimentos com impacto forte podem acelerar essa reorganização.
Repetir os instrumentos de dois em dois anos é uma cadência razoável. Reavaliar mais vezes do que isso costuma captar ruído em vez de mudança, e uma variação de poucos pontos entre duas aplicações é a margem de erro do instrumento a trabalhar, sem significado nenhum.
Há uma exceção. Vale a pena repetir depois de mudanças estruturais reais: uma separação, a paternidade, uma doença, uma mudança de país. Nesses casos a reorganização é rápida o suficiente para aparecer nos números.
Para levar contigo
Um teste bem escolhido e bem lido dá-te uma coisa concreta: linguagem precisa para padrões que já sentias e não conseguias nomear, com uma indicação de onde estás em relação às outras pessoas.
Os quatro critérios protegem-te de quase tudo o que corre mal. Consistência interna, estabilidade no tempo, validade fora do próprio teste, e normas de referência. Um instrumento que não publica estes números está a pedir-te confiança sem apresentar razões.
E o passo que quase toda a gente salta é o que mais rende: depois de leres o teu resultado, escolhe uma frase com que não concordaste e passa dez minutos por escrito a explorar porquê. É aí que o teste deixa de ser entretenimento.
Perguntas frequentes
Quais são os melhores testes de autoconhecimento?
Por ordem de suporte empírico: os cinco grandes fatores, para a estrutura geral da personalidade; os instrumentos de estilo de apego, que medem ansiedade e evitamento em escalas contínuas; e o questionário de valores de Schwartz. As tipologias como o eneagrama e o MBTI têm suporte mais fraco e servem sobretudo como vocabulário partilhável.
Como saber se um teste de personalidade é fiável?
Verifica quatro coisas: consistência interna, tipicamente com alfa de Cronbach acima de 0,70; estabilidade teste-reteste ao fim de semanas ou anos; validade, ou seja, se o resultado prevê alguma coisa fora do próprio teste; e existência de normas de referência numa amostra grande. Instrumentos sérios publicam estes números e dizem também o que não conseguem fazer.
O que significa realmente o resultado de um teste?
É um percentil, e não uma categoria. Uma pontuação no percentil 65 de extroversão significa que respondes de forma mais extrovertida do que sessenta e cinco por cento da amostra, o que é perto do meio. Olha para as dimensões onde estás muito alto ou muito baixo e ignora as que ficam entre trinta e setenta.
O que é o efeito Barnum nos testes de personalidade?
É a tendência para aceitarmos como precisas descrições vagas o suficiente para servirem a quase toda a gente. Testa-o assim: sublinha no teu relatório as frases que só se aplicam a ti, e depois lê o relatório de outro tipo e vê quantas delas também te serviriam. O que sobra é o valor real do instrumento.
De quanto em quanto tempo devo repetir um teste?
De dois em dois anos é uma cadência razoável. Repetir com mais frequência costuma captar ruído em vez de mudança real, e variações de poucos pontos entre duas aplicações são margem de erro. Vale a pena reavaliar antes disso depois de mudanças estruturais como uma separação, a paternidade ou uma doença.
Porque é que o meu resultado muda de cada vez que faço o teste?
Pode ser o instrumento ou pode ser o contexto. Tipologias que forçam categorias fazem oscilar muita gente entre tipos, porque cortam dimensões contínuas ao meio e quem está perto do corte muda de lado com pouca variação. Do teu lado, sono a menos, um estado emocional atípico ou responder a pensar no trabalho em vez da vida em geral deslocam as pontuações.
A Agapone cruza vários instrumentos numa leitura só, com os limites de cada um assumidos, para que o resultado sirva para alguma coisa depois de fechares o relatório. É na categoria Mental do ADN que o MBTI, o Eneagrama, o Big Five e o DISC entram nessa leitura, cada um com o peso que merece. Se queres ver isso em prática, visita a Agapone e explora o teu perfil.
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