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MBTI e os 16 tipos de personalidade: o que vale a pena levar a sério

Se já preencheste o teu perfil no LinkedIn, participaste numa formação de equipa ou simplesmente andaste pelas redes sociais, é provável que já tenhas visto uma sigla de quatro letras como INFP, ESTJ ou ENFP. É o MBTI, o Indicador de Tipo Myers-Briggs, provavelmente o teste de personalidade mais popular do mundo. É também um dos mais discutidos entre psicólogos, e por boas razões.

Este artigo não é um ataque nem uma defesa do MBTI. É um mapa do que a investigação mostra, para que consigas usar os 16 tipos com curiosidade, sem lhes dar mais peso do que aguentam.

O que é o MBTI e de onde vem

De Jung a Katharine Briggs e Isabel Myers

O MBTI não nasceu num laboratório de psicometria. Nasceu à mesa de cozinha de uma mãe curiosa. Em 1915, quando a sua filha Isabel trouxe a casa o namorado, Clarence Myers, Katharine Cook Briggs ficou fascinada por o rapaz pensar e reagir ao mundo de forma tão diferente da família dela. Passou a observar e a catalogar diferenças de temperamento à sua volta.

Em 1921, o psiquiatra suíço Carl Jung publicou "Tipos Psicológicos", uma obra teórica sobre como as pessoas processam informação e tomam decisões, organizada em torno de atitudes (introversão e extroversão) e funções psíquicas (pensar, sentir, sentir através dos sentidos e intuir). Katharine Briggs leu o livro pouco depois de sair e passou as duas décadas seguintes a estudar e a expandir as ideias de Jung.

Foi a filha, Isabel Briggs Myers, sem formação formal em psicologia, quem transformou essas observações num questionário. Selecionou perguntas que separavam bem as pessoas nas categorias que a mãe e ela tinham vindo a mapear, e em 1943 criou a primeira versão do instrumento, a Forma A. O primeiro manual formal do MBTI só seria publicado em 1962, já com o apoio do Educational Testing Service norte-americano.

As quatro dicotomias e os 16 tipos

O MBTI organiza a personalidade em quatro pares de preferências opostas. Cada pessoa fica classificada de um lado de cada par, o que dá origem a 16 combinações possíveis, os famosos tipos de quatro letras.

Combina as quatro letras e obténs tipos como INFJ, ESTP ou ENTJ, cada um com uma descrição própria de pontos fortes, tendências e potenciais dificuldades.

Há razões concretas para o sucesso do MBTI, independentemente do que a ciência diz sobre ele.

Primeiro, a linguagem é acessível. Ninguém precisa de saber estatística para perceber "sou mais introvertido, prefiro planear do que improvisar". Segundo, nenhum tipo é apresentado como pior do que outro, o que torna o resultado confortável de partilhar, ao contrário de testes clínicos que apontam para défices. Terceiro, entrou cedo no mundo empresarial como ferramenta de formação de equipas e comunicação, e ficou. Segundo a própria empresa que hoje comercializa o instrumento, 88 das empresas da Fortune 100 usam o MBTI. Fonte: a Myers-Briggs Company sobre o MBTI

Popularidade, no entanto, não é o mesmo que validade científica. E é aqui que o MBTI começa a dividir opiniões.

O que a investigação diz: os problemas do modelo

A fiabilidade teste-reteste é fraca

Um bom teste psicológico deve dar resultados parecidos se a mesma pessoa o repetir passado pouco tempo, sem grandes mudanças de vida entretanto. É a chamada fiabilidade teste-reteste. No caso do MBTI, os estudos não são animadores.

A revisão mais citada sobre o tema, do investigador David Pittenger, publicada em 1993, mostrou que cerca de metade das pessoas que refazem o MBTI ao fim de poucas semanas recebe um tipo de quatro letras diferente do primeiro. Fonte: Pittenger, "Measuring the MBTI...And Coming Up Short", 1993 A explicação mais provável não é que a personalidade da pessoa tenha mudado nessas semanas, é que o MBTI força uma escolha binária (E ou I, por exemplo) em traços que, na realidade, são contínuos. Quem responde perto do meio de uma escala pode cair de um lado numa altura e do outro lado poucas semanas depois, por pura oscilação de humor ou de contexto, sem que isso represente qualquer mudança real de personalidade.

Tipos fechados escondem um espectro contínuo

Este é o problema estrutural mais discutido. O MBTI apresenta introversão e extroversão, por exemplo, como categorias distintas, como se existisse uma fronteira clara entre os dois grupos. A investigação em personalidade não confirma essa fronteira. O que os dados mostram, de forma consistente, é uma distribuição contínua, com a maioria das pessoas algures no meio, e não dois grupos separados por um fosso.

Um estudo de referência dos psicólogos Robert McCrae e Paul Costa, publicado em 1989, comparou diretamente as quatro dicotomias do MBTI com o modelo Big Five. Encontraram correlações fortes entre introversão/extroversão do MBTI e extroversão do Big Five, e entre intuição/sensação do MBTI e abertura à experiência do Big Five, entre outras correspondências. A conclusão dos autores foi clara: o MBTI mede, de facto, aspetos genuínos de quatro das cinco grandes dimensões da personalidade, mas fá-lo através de categorias artificialmente fechadas, onde a evidência aponta para escalas contínuas. Fonte: McCrae & Costa, "Reinterpreting the Myers-Briggs Type Indicator...", Journal of Personality, 1989

Se já leste o nosso artigo sobre o Big Five, reconheces o paralelo. O MBTI e o Big Five perguntam, em larga medida, coisas parecidas. A diferença é que um devolve uma etiqueta fechada e o outro devolve uma posição numa escala.

O MBTI não está a inventar diferenças que não existem. Está a espremer diferenças reais e contínuas para dentro de caixas fechadas que a personalidade humana, na prática, não respeita.

O efeito Barnum e as descrições que servem para todos

Outra crítica frequente tem nome próprio, o efeito Barnum, a tendência para aceitar como precisa uma descrição vaga e genérica, escrita de forma a poder aplicar-se a quase qualquer pessoa. As descrições associadas a cada um dos 16 tipos de MBTI tendem a ser generosas, positivas e suficientemente amplas para que a maioria das pessoas se reveja nelas, o que reforça a sensação de "isto é mesmo eu", mesmo quando a precisão real da categorização é discutível.

O que vale mesmo a pena aproveitar do MBTI

Nem tudo é para deitar fora. Usado com as expectativas certas, o MBTI continua a ter utilidade prática, sobretudo como ponto de partida para conversa e reflexão, não como diagnóstico definitivo.

O que não vale a pena é tratar o resultado como diagnóstico fixo, usá-lo para excluir candidatos em processos de recrutamento, ou concluir que duas pessoas são incompatíveis só porque têm tipos "opostos" no papel. Para uma leitura mais robusta sobre como perfis de personalidade se cruzam numa relação, vale a pena visitar a categoria relacional da Agapone, onde compatibilidade é tratada como algo mais rico do que quatro letras.

MBTI vs. Big Five, lado a lado

MBTIBig Five
Estrutura16 tipos fechados5 escalas contínuas
Base científicaTeoria de Jung, sem validação empírica diretaDécadas de análise fatorial e replicação
Fiabilidade teste-retesteFraca, cerca de metade muda de tipo em semanasSólida, resultados estáveis ao longo do tempo
Uso mais comumFormação de equipas, autoconhecimento popularInvestigação académica, seleção e desenvolvimento profissional
Facilidade de usoMuito alta, linguagem simplesAlta, mas exige explicar o que significa uma pontuação numa escala

Como usar o MBTI sem cair em armadilhas

Se já fizeste o teste e tens um tipo de quatro letras na cabeça, três perguntas ajudam a usá-lo com juízo. O resultado descreve tendências que reconheces em situações concretas, ou é uma descrição vaga que serviria para quase qualquer pessoa? Estarias disposto a aceitar um tipo diferente se refizesses o teste daqui a um mês, sabendo que é estatisticamente provável? E, mais importante, estás a usar o tipo para te compreenderes melhor, ou para te limitares a uma caixa?

Se procuras um enquadramento mais robusto para te conheceres, a categoria mental da Agapone cruza este tipo de instrumentos com outras camadas de leitura, para lá de uma sigla de quatro letras. E se estás a preencher testes de personalidade online com regularidade, vale a pena parar um momento e verificar como cada plataforma trata esses dados sensíveis, um tema que exploramos na categoria de dados pessoais da Agapone.

Para levar contigo

O MBTI não é pseudociência inventada do nada, tem raízes numa teoria psicológica séria e capta diferenças reais entre pessoas. O problema não é o que mede, é como o apresenta, em caixas fechadas onde a personalidade humana, na realidade, se distribui em espectros contínuos. Usa-o como conversa inicial sobre como pensas e decides, não como resposta final sobre quem és.


A Agapone parte precisamente daqui, de instrumentos como o MBTI ou o Big Five, para construir um retrato mais completo, que cruza personalidade com outras camadas de autoconhecimento. Se queres ver essa leitura em prática, visita a Agapone e explora o teu perfil.