Propósito de vida: como encontrar o teu sem esperar por uma revelação
A pergunta sobre o propósito costuma chegar em dois momentos: aos vinte e poucos, quando ainda tudo está em aberto, e algures depois dos trinta e cinco, quando já se construiu qualquer coisa e a construção não está a produzir a sensação prometida. Em ambos os casos a pergunta aparece com a mesma forma errada, que é a de esperar por uma revelação.
O propósito é dos poucos conceitos deste campo com evidência empírica sólida por trás, incluindo estudos que o associam a viver mais anos. E ao mesmo tempo é o tema onde circula mais folclore, incluindo um diagrama muito partilhado que quase toda a gente acredita ser japonês e não é. Este artigo trata as duas coisas.
O que é propósito, em psicologia
Em investigação, propósito tem uma definição de trabalho bastante concreta: uma intenção estável e generalizada de alcançar algo que é ao mesmo tempo significativo para ti e consequente para o mundo para além de ti.
Três partes importam nesta definição.
Estável e generalizada. Um propósito atravessa contextos e mantém-se ao longo de anos. Um objetivo com data cumpre-se e sai da lista; um propósito continua a organizar decisões depois de cada objetivo ser atingido.
Significativo para ti. Tem de ligar-se ao que valorizas. É por isso que o trabalho sobre valores pessoais vem sempre antes deste, e não depois.
Consequente para o mundo para além de ti. É a parte que a versão de autoajuda corta. Nas definições usadas em investigação, sobretudo no trabalho de William Damon sobre desenvolvimento do propósito, a orientação para algo fora de si próprio é uma condição e não um adorno. Um projeto inteiramente auto-centrado produz motivação; costuma não produzir a sensação de propósito.
Convém ainda separar propósito de sentido. O sentido é a perceção de que a tua vida faz sentido e importa, e pode existir sem direção nenhuma. O propósito acrescenta o vetor: para onde. Nos modelos de bem-estar psicológico, como o de Carol Ryff, o propósito na vida é uma das seis dimensões medidas separadamente, precisamente porque não se confunde com estar bem.
O que os dados dizem
Aqui a evidência é melhor do que a maior parte das pessoas espera.
Patrick Hill e Nicholas Turiano publicaram em 2014, na Psychological Science, um estudo chamado Purpose in Life as a Predictor of Mortality Across Adulthood. Usaram dados longitudinais do estudo americano MIDUS e acompanharam os participantes durante catorze anos. Quem pontuava mais alto em propósito viveu mais tempo, e o efeito manteve-se depois de controlar outros indicadores de bem-estar psicológico e afetivo.
Dois pormenores tornam este resultado mais interessante. O benefício não dependia da idade a que a pessoa encontrou o seu propósito, o que retira urgência à pergunta. E também não dependia de a pessoa estar ou não reformada, o que separa o propósito da identidade profissional.
A literatura posterior associou pontuações altas de propósito a menor risco cardiovascular, melhor sono, menor declínio cognitivo e menor probabilidade de recorrer a cuidados de saúde preventivos com atraso. Vale a ressalva habitual: são estudos observacionais, e ainda que os investigadores controlem variáveis, a causalidade fica por demonstrar de forma definitiva. Uma vida com propósito e uma vida com saúde alimentam-se uma à outra em ambas as direções.
O diagrama do ikigai que não é japonês
Provavelmente já viste o diagrama: quatro círculos sobrepostos com o que amas, aquilo em que és bom, aquilo pelo qual te pagam e aquilo de que o mundo precisa, e no centro a palavra ikigai. Está em milhões de apresentações e em quase todos os artigos sobre propósito.
Não veio do Japão.
O diagrama de quatro círculos foi criado pelo blogger britânico Marc Winn em 2014, num artigo chamado What Is Your Ikigai. Winn pegou num diagrama de propósito que o espanhol Andrés Zuzunaga tinha publicado dois anos antes, substituiu a palavra do centro pela palavra japonesa, e o resultado tornou-se viral. O próprio Winn já esclareceu publicamente que o diagrama não capta a conotação original do termo.
O conceito japonês é bastante diferente e mais interessante. Ikigai traduz-se aproximadamente como aquilo que faz a vida valer a pena, e na tradição em que aparece, sobretudo no trabalho da psiquiatra Mieko Kamiya, é normalmente pequeno e quotidiano. O café da manhã. Cuidar de uma planta. Uma conversa com um vizinho. O neurocientista Ken Mogi, que escreveu sobre o tema, sublinha que o ikigai não exige que sejas bom em alguma coisa, nem que te paguem por ela, nem que o mundo precise dela.
A diferença tem consequências práticas. A versão ocidental do diagrama exige que quatro condições se cruzem, incluindo a de te pagarem, o que transforma o propósito num problema de carreira e deixa a maior parte das pessoas de fora. A versão original permite que uma vida tenha vários ikigai pequenos ao mesmo tempo, e que nenhum deles tenha relação com o teu emprego.
Se o diagrama te for útil como exercício de reflexão, usa-o. Só não o uses a pensar que estás a aplicar sabedoria japonesa milenar, porque tem doze anos e nasceu na Grã-Bretanha.
Porque a revelação não chega
A ideia mais tóxica sobre este tema é a de que existe um propósito único, à tua espera, e que a tua tarefa é descobri-lo. Ela produz duas paralisias.
A primeira é a espera. Se acreditas que o propósito é encontrado e não construído, faz sentido adiar decisões até teres a certeza. As pessoas passam anos assim, e a certeza continua a não chegar, porque não é assim que isto funciona.
A segunda é a escala. A palavra propósito soa a missão de vida, e a comparação implícita é com pessoas cujo trabalho aparece em documentários. Nas definições usadas em investigação, cuidar bem de três pessoas ao longo de trinta anos qualifica sem qualquer dificuldade.
O que a investigação sobre desenvolvimento do propósito descreve é um processo bastante mais banal: as pessoas envolvem-se em alguma coisa por razões acidentais, reparam que aquilo lhes dá energia e produz efeito, e vão gradualmente organizando mais da sua vida à volta disso. O propósito costuma ser reconhecido em retrospetiva, a meio do caminho, e raramente antes de se começar.
Três formas de encontrar o teu
Todas partem de dados que já existem sobre ti.
O método da energia. Durante três semanas, anota no fim de cada dia uma atividade que te deixou com mais energia do que aquela com que entraste, e uma que te esvaziou. Não uses o critério do prazer, porque muitas coisas com propósito são exigentes e desagradáveis no momento. O critério é o estado em que te deixam. Ao fim de três semanas tens um padrão, e o padrão aponta uma direção.
O método do problema. Que problema no mundo te irrita de forma desproporcionada, ao ponto de te apetecer meteres-te onde não és chamado? A orientação para fora, que é a componente que a autoajuda corta, aparece quase sempre disfarçada de irritação com algo mal feito. Aquilo que te faz pensar que alguém devia fazer alguma coisa sobre isto é o candidato mais óbvio.
O método da contribuição já feita. Pergunta a cinco pessoas que te conhecem bem em que situação é que tu foste concretamente útil na vida delas. As respostas costumam surpreender, porque quase nunca coincidem com aquilo de que te orgulhas, e apontam para uma capacidade que exerces sem esforço e por isso desvalorizas.
Nenhum destes métodos produz uma frase para colocar numa biografia. Produzem uma direção, que é o que o propósito é.
Como se transforma direção em vida
Uma direção sem tradução prática dissolve-se em poucas semanas. Três passos evitam isso.
Faz uma versão pequena esta semana. Se a direção aponta para ensinar, ensina uma coisa a uma pessoa nos próximos sete dias. A confirmação vem da experiência e não da reflexão.
Reserva tempo antes de reservar ambição. Duas horas por semana, protegidas, valem mais do que um plano de mudança de vida que fica dependente de condições que nunca se reúnem.
Aceita que vai mudar. O propósito reorganiza-se com as fases da vida, e a versão que serve aos vinte e cinco costuma não servir aos cinquenta. A revisão faz parte, e não é sinal de que estavas enganado.
Esta camada, a de perceber o que significa para ti uma vida realizada e como isso se traduz no quotidiano, é o que a Agapone lê na categoria Visão de Vida, onde a Definição de Sucesso e a Bússola Cívica mapeiam exatamente este território.
Para levar contigo
O propósito tem evidência real por trás, incluindo a associação com viver mais anos, e tem também a maior quantidade de folclore de todo o campo do autoconhecimento. O diagrama que viste partilhado mil vezes nasceu num blogue britânico em 2014.
O que sobrevive à limpeza é útil e modesto. O propósito é uma direção estável, ligada ao que valorizas e orientada para algo fora de ti, que se constrói em retrospetiva a partir de coisas que já andas a fazer. Vem de reparares no que já te dá energia e de fazeres mais disso, com intenção, e a revelação continua a não estar marcada para nenhum dia.
E se te serve de alívio: o estudo que mostrou o efeito na longevidade também mostrou que a idade a que o encontras não faz diferença nenhuma.
Perguntas frequentes
O que é o propósito de vida em psicologia?
É uma intenção estável e generalizada de alcançar algo que é ao mesmo tempo significativo para a pessoa e consequente para o mundo para além dela. Distingue-se de um objetivo, que se cumpre e sai da lista, e de sentido, que é a perceção de que a vida importa mas pode existir sem direção definida.
Ter propósito faz mesmo viver mais tempo?
O estudo de Hill e Turiano, publicado na Psychological Science em 2014, acompanhou participantes durante catorze anos e encontrou maior longevidade em quem pontuava mais alto em propósito, mesmo controlando outros indicadores de bem-estar. O efeito não dependia da idade a que o propósito foi encontrado. É um estudo observacional, portanto a causalidade fica por demonstrar de forma definitiva.
O diagrama do ikigai com quatro círculos é japonês?
Não. Foi criado pelo blogger britânico Marc Winn em 2014, a partir de um diagrama de propósito publicado por Andrés Zuzunaga dois anos antes, ao qual substituiu a palavra central pelo termo japonês. O próprio autor já esclareceu que não capta a conotação original. O conceito japonês, na tradição de Mieko Kamiya, é habitualmente pequeno e quotidiano e não exige que sejas pago pelo que fazes.
Como descobrir o meu propósito de vida?
Parte de dados que já existem sobre ti. Regista durante três semanas o que te deixa com mais energia do que aquela com que entraste. Identifica o problema no mundo que te irrita de forma desproporcionada. E pergunta a cinco pessoas próximas em que situação concreta foste útil na vida delas. Os três métodos apontam uma direção, e é isso que o propósito é.
Qual é a diferença entre propósito e sentido de vida?
O sentido é a perceção de que a tua vida faz sentido e importa, e pode existir sem qualquer direção. O propósito acrescenta o vetor, ou seja, para onde. Nos modelos de bem-estar psicológico são medidos como dimensões separadas, precisamente porque uma pessoa pode ter uma sem a outra.
É tarde para encontrar um propósito?
Os dados dizem que não. No estudo de Hill e Turiano, o benefício associado ao propósito não dependia da idade dos participantes nem de estarem ou não reformados, o que separa o propósito da identidade profissional e retira urgência à pergunta.
A Agapone lê a tua definição de sucesso e a forma como a vives no dia a dia, a par de outras camadas de autoconhecimento, para que esta pergunta deixe de depender de uma revelação. Se queres ver essa leitura em prática, visita a Agapone e explora o teu perfil.
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