Blog

Estilos de conflito: os 5 modos de Thomas-Kilmann e o que Gottman viu quando os casais discutem

Há pessoas que discutem aos gritos e resolvem tudo em dez minutos, e há pessoas que discutem baixinho e continuam com o mesmo problema meses depois. Nenhuma das duas está a fazer batota. Estão só a usar estilos de conflito diferentes, e a diferença entre os dois raramente está na intensidade, está na estrutura.

A psicologia organizacional estuda isto há cinco décadas, com um modelo que continua a ser o mais usado no mundo para descrever como as pessoas lidam com desacordo: o dos cinco modos de Thomas e Kilmann. Entretanto, num laboratório diferente, John Gottman observou milhares de casais a discutir e identificou padrões que preveem mais do que o estilo em si. Este artigo junta as duas coisas: o que os cinco modos dizem sobre ti, e o que a investigação de Gottman acrescenta sobre a forma como os pomos em prática.

Duas perguntas, cinco respostas possíveis

Nos anos 1970, os investigadores Kenneth Thomas e Ralph Kilmann propuseram que o comportamento de alguém perante um conflito se descreve a partir de duas perguntas simples. Até que ponto tentas satisfazer os teus próprios interesses, a assertividade? E até que ponto tentas satisfazer os interesses da outra pessoa, a cooperação?

O modelo bebeu da grelha de gestão de Robert Blake e Jane Mouton, dos anos 1960, que cruzava a preocupação com resultados e a preocupação com pessoas para descrever estilos de liderança. Thomas e Kilmann aplicaram a mesma lógica ao conflito, e o resultado publicado é o instrumento MODE, descrito num artigo de 1977 na Educational and Psychological Measurement, que continua a ser a referência académica citada quando se fala do teste.

Cruzando as duas dimensões em baixo, médio e alto, aparecem cinco combinações, e cada uma corresponde a um dos cinco modos.

Os cinco modos, um a um

Competir. Assertividade alta, cooperação baixa. Persegues o que queres sem grande peso pela posição do outro. Útil em emergências, quando uma decisão rápida importa mais do que o consenso, e arriscado como padrão fixo numa relação próxima, porque trata o desacordo como um jogo de soma zero.

Colaborar. Assertividade alta, cooperação alta. Os dois procuram uma solução que sirva os interesses reais de ambos, não apenas uma divisão do que está em cima da mesa. É o modo mais caro em tempo e energia, e o único dos cinco desenhado para resolver a causa do problema em vez de a gerir.

Comprometer. Nível médio nas duas dimensões. Cada um cede um pouco para chegar a um meio-termo depressa. Prático quando o tempo escasseia, e insatisfatório quando os dois lados saem a sentir que perderam mais do que ganharam.

Evitar. Assertividade baixa, cooperação baixa. Adias, mudas de assunto, sais da sala. Nem sempre é fraqueza, às vezes é a leitura correta de que o momento é mau ou de que o tema não vale o desgaste. O risco está em usar a evitação como estratégia única, porque os temas evitados não desaparecem, acumulam.

Acomodar. Assertividade baixa, cooperação alta. Cedes, muitas vezes para preservar a relação ou evitar o desgaste. Generoso quando o tema pesa mais para o outro do que para ti, e corrosivo quando se torna o único modo disponível, porque as tuas necessidades deixam de entrar na equação.

ModoAssertividadeCooperaçãoFunciona melhor quando
CompetirAltaBaixaa decisão é urgente e não há tempo para consenso
ColaborarAltaAltao tema é estrutural e vale o investimento
ComprometerMédiaMédiao tempo escasseia e um meio-termo rápido chega
EvitarBaixaBaixao tema é menor ou o momento é mau
AcomodarBaixaAltao tema pesa mais para o outro do que para ti

Não há modo bom, há modo bem encaixado

O erro mais comum é ler esta lista como um ranking, com colaborar no topo e competir no fundo. A investigação sobre o modelo diz outra coisa: cada modo tem contextos onde funciona bem e contextos onde falha, e a competência real está em variar consoante a situação, não em fixar um modo como identidade.

Comprometer é a escolha certa numa negociação de última hora, e a errada quando o tema é estrutural e vai voltar semanas depois na mesma forma. Evitar protege uma relação de uma discussão inútil sobre um pormenor, e desgasta-a se for a resposta a tudo o que incomoda. A maioria das pessoas tem um modo dominante, que usa com mais frequência do que os outros, e um ou dois modos secundários a que recorre em contextos específicos. Nenhum destes padrões é fixo: muda consoante o interlocutor, o tema e o teu estado emocional no momento.

Como se mede, e onde o teste tropeça

O instrumento original, hoje conhecido como TKI, pede para escolheres, entre pares de frases, qual descreve melhor o teu comportamento. Este formato chama-se escolha forçada, ou ipsativo, e tem uma limitação estatística que vale a pena conhecer antes de levares o resultado demasiado a sério.

Numa reanálise de 1990 publicada na Academy of Management Journal, Evert van de Vliert e Boris Kabanoff testaram os dois instrumentos de conflito mais usados na altura contra a teoria que os devia sustentar, e encontraram apenas validade moderada, com desvios em relação ao que a teoria previa. O problema de fundo é o mesmo que afeta outros testes de escolha forçada: a tua pontuação num modo depende de quanto pontuas nos outros, porque estás sempre a escolher entre eles, e isso dificulta comparar duas pessoas diferentes com rigor. O resultado descreve tendências relativas dentro de ti, não uma medida absoluta comparável de pessoa para pessoa.

O que Gottman viu quando os casais discutiam

Enquanto o modelo de Thomas-Kilmann descreve a tua disposição geral perante o conflito, uma linha de investigação diferente, a de John Gottman, olhou para o que acontece de facto durante a discussão, e não apenas para a etiqueta do estilo.

No estudo mais citado desta linha, Gottman e Robert Levenson filmaram 73 casais casados numa conversa de conflito em laboratório em 1983, mediram batimento cardíaco e outros sinais fisiológicos durante a discussão, e voltaram a contactá-los quatro anos depois, com uma taxa de resposta de 92%. O que separava os casais que continuavam juntos dos que se tinham separado não era o tema da discussão nem, sozinho, o modo dominante de cada um. Era um conjunto de comportamentos específicos dentro da própria discussão: quem ficava fisiologicamente ativado e não conseguia acalmar, que padrões de crítica e desprezo apareciam, e com que frequência surgiam gestos de reparação, pequenos sinais que baixam a tensão a meio de uma discussão.

Isto separa duas coisas que se confundem com facilidade. O teu modo dominante, competir, evitar ou colaborar, diz como te posicionas perante um desacordo. Os padrões que Gottman documentou dizem o que acontece dentro dessa posição, momento a momento, e é aí que mora a maior parte da capacidade preditiva. Já explorámos esses padrões, incluindo o número de noventa por cento que circula sem contexto e a crítica séria que recebeu, num artigo sobre conversas difíceis na relação, que vale a pena ler a par deste se o interesse for o mecanismo momento a momento e não apenas o estilo de fundo.

Estilo de conflito não é estilo de apego, mas conversam entre si

Vale a pena não confundir os dois. O estilo de conflito descreve o que fazes quando o desacordo já está em cima da mesa. O estilo de apego descreve o que esperas de uma relação próxima antes de qualquer conflito acontecer, e ajuda a explicar porque duas pessoas com o mesmo modo dominante reagem de forma diferente ao mesmo desacordo.

Um padrão de apego ansioso tende a puxar mais para acomodar ou para competir sob stress, porque o silêncio do outro é lido como ameaça à relação. Um padrão evitante tende a puxar para evitar, porque a proximidade forçada de uma discussão é o que mais desconforta. Nenhum destes acoplamentos é uma regra fixa, mas ajuda a perceber porque o mesmo modo de conflito pode ter raízes muito diferentes em pessoas diferentes, e é um dos cruzamentos que a categoria relacional da Agapone lê em conjunto, em vez de tratar cada peça isolada.

Três perguntas para usar isto sem cair em armadilhas

O modo que uso hoje é uma escolha ou um automatismo? A maioria das pessoas nunca decidiu conscientemente competir ou evitar, é simplesmente o que o corpo faz sob stress. Nomeá-lo já é o primeiro passo para conseguires escolher outro modo quando o contexto pedir.

Este tema pede colaborar, ou pede um comprometer rápido? Nem todos os desacordos merecem o investimento de uma solução completa. Reservar colaborar para os temas que realmente importam, e usar comprometer ou acomodar nos pequenos, poupa energia para quando ela é precisa.

O que acontece depois de eu usar o meu modo dominante? Se depois de competires a relação fica tensa durante dias, ou se depois de evitares o tema volta sempre pela porta do lado, o modo pode estar a resolver o desacordo de hoje e a criar um maior amanhã. É aqui que os gestos de reparação de que fala a investigação de Gottman, um pedido de desculpa parcial, um reconhecimento do ponto do outro, fazem mais diferença do que trocar de modo. A forma como voltas a aproximar-te depois de um desacordo é também, no fundo, uma questão de intimidade: quanto te permites mostrar vulnerável no momento de reparar.

Para levar contigo

Não existe um modo de conflito superior aos outros. Competir, colaborar, comprometer, evitar e acomodar são ferramentas diferentes para problemas diferentes, e a maturidade está em reconhecer qual o momento pede, não em escolher sempre o mesmo. O teste que mede isto tem limitações reais, sobretudo no formato de escolha forçada que dificulta comparações rigorosas entre pessoas, mas a estrutura teórica que descreve, assertividade cruzada com cooperação, continua a ser uma forma útil de nomear o que fazes quando alguém discorda de ti. E o que Gottman mostrou é que o estilo é só metade da história: o que acontece dentro da discussão, momento a momento, pesa tanto ou mais do que o rótulo que lhe damos.

Perguntas frequentes

Quais são os 5 estilos de conflito de Thomas-Kilmann?

Competir (assertividade alta, cooperação baixa), colaborar (as duas altas), comprometer (as duas em nível médio), evitar (as duas baixas) e acomodar (assertividade baixa, cooperação alta). Cada modo cruza o quanto persegues os teus próprios interesses com o quanto persegues os do outro.

Qual é o melhor estilo de gerir conflitos?

Nenhum é melhor em absoluto. Cada modo funciona bem em certos contextos e falha noutros: comprometer resolve depressa um desacordo menor, colaborar vale o investimento num tema estrutural, e evitar protege de uma discussão inútil, mas desgasta se for a resposta a tudo. A competência está em variar consoante a situação.

O teste de estilo de conflito é fiável?

Tem validade moderada. O formato de escolha forçada usado no instrumento original dificulta a comparação rigorosa entre pessoas diferentes, porque o resultado de cada modo depende de quanto pontuas nos outros. É mais útil como leitura das tuas tendências relativas do que como medida absoluta.

O que descobriu John Gottman sobre a forma como os casais discutem?

Ao observar 73 casais em conflito e voltar a contactá-los quatro anos depois, Gottman e Levenson mostraram que o que mais separava quem continuava junto de quem se tinha separado não era o estilo de conflito em si, mas comportamentos específicos dentro da discussão, como padrões de crítica, ativação fisiológica prolongada e a frequência de gestos de reparação.

Estilo de conflito e estilo de apego são a mesma coisa?

Não. O estilo de conflito descreve o que fazes quando um desacordo já está em curso. O estilo de apego descreve o que esperas de uma relação próxima, e ajuda a explicar porque duas pessoas com o mesmo modo dominante de conflito podem chegar lá por caminhos emocionais diferentes.


A Agapone lê o teu padrão de conflito a par de outras camadas, como o apego e os valores pessoais, para que a leitura sobre como te relacionas seja mais do que uma etiqueta isolada. Se queres ver essa leitura em prática, visita a Agapone e explora o teu perfil.

Gostas do que lês aqui?

Marca a Agapone como fonte preferida na Pesquisa Google e vê mais artigos nossos no Discover e nas notícias em destaque.

Adicionar como fonte preferida
14 de setembro de 202612 min de leitura

Eneagrama tipo 9, o Pacificador: traços, sombra e caminho de crescimento

O eneagrama tipo 9 a fundo: medo e desejo central, asas 9w8 e 9w1, e porque a preguiça deste tipo é esquecimento de si e não falta de trabalho.

10 de setembro de 202610 min de leitura

Vulnerabilidade nas relações: força ou fraqueza, e o que diz a investigação

O que é vulnerabilidade com precisão, porque a avalias pior em ti do que nos outros, e a diferença entre mostrar-te e despejar. Com a evidência e os limites.

7 de setembro de 202612 min de leitura

Eneagrama tipo 8, o Desafiador: traços, sombra e caminho de crescimento

O eneagrama tipo 8 a fundo: medo e desejo central, asas 8w7 e 8w9, e porque por baixo da armadura está uma vulnerabilidade que este tipo aprendeu a negar.