Blog

Compatibilidade num casal: o que realmente prevê uma relação duradoura

Quantas vezes já ouviste dizer que duas pessoas "não são compatíveis"? A frase soa a explicação, mas quase nunca é. Compatibilidade tornou-se uma palavra que usamos para tudo e explicamos pouco, um traço de personalidade que combina, um signo que bate certo, um teste que devolve uma percentagem de afinidade.

A investigação em psicologia das relações diz outra coisa. Não é que a compatibilidade não exista, é que aquilo que a maioria de nós procura quando fala em compatibilidade não é o que, de facto, sustenta uma relação ao longo dos anos. Este artigo olha para o que os estudos maiores e mais recentes mostram sobre o que realmente prevê uma relação duradoura, e porque é que isso tem pouco a ver com "encaixar".

O mito da compatibilidade perfeita

A ideia mais comum de compatibilidade é a de duas pessoas parecidas ou complementares nos traços certos: os mesmos interesses, feitios que não colidem, uma lista de critérios que, no papel, bate certo. É uma ideia intuitiva, e é também a lógica por trás de grande parte dos testes de afinidade e das apps que emparelham pessoas por semelhança.

O problema é que essa ideia trata a relação como algo que se decide antes de começar, uma espécie de exame de admissão. Mas uma relação não é um estado, é um processo contínuo, feito de milhares de interações pequenas ao longo de anos. E é sobre esse processo, não sobre o retrato inicial de cada pessoa, que a ciência tem mais para dizer.

O que a ciência realmente mostra

O estudo mais robusto sobre este tema até hoje é um trabalho de 2020 publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), liderado pela psicóloga Samantha Joel com mais de oitenta investigadores de várias universidades. A equipa reuniu dados de 43 estudos longitudinais, mais de 11 mil casais no total, e usou aprendizagem automática para testar centenas de variáveis, traços de personalidade, valores, estilos de apego, características demográficas e perceções sobre a própria relação, para ver quais previam melhor a satisfação relacional.

O resultado foi claro. As características individuais de cada pessoa, personalidade, valores, background, explicaram muito pouco da satisfação de um casal, uma fração residual da variação total. O que explicou uma fatia muito maior foram variáveis específicas da relação, e sobretudo como cada pessoa perceciona essa relação: o quanto sente que o parceiro está comprometido, o quanto se sente apreciada, a satisfação sexual, a perceção de que o parceiro também está satisfeito, e o nível de conflito.

Os traços que trazes contigo pesam pouco. O que pesa é o que sentes, dia a dia, dentro da relação, sobretudo se sentes que o outro está comprometido e que valoriza o que fazes.

Dito de outra forma, compatibilidade "de fábrica" (os teus traços encaixarem bem com os traços do outro) importa muito menos do que aquilo que os dois constroem depois de estarem juntos. Duas pessoas parecidas podem ser infelizes, e duas pessoas muito diferentes podem construir algo sólido, se o que se passa entre elas, comprometimento sentido, apreço, forma de lidar com o conflito, funcionar.

Porque é que o compromisso pesa tanto

Um dos achados mais consistentes do estudo de Joel e colegas foi o peso do comprometimento percebido do parceiro. Isto não surge do nada, cruza com décadas de investigação anterior, em particular o modelo de investimento da psicóloga Caryl Rusbult, uma das teorias mais testadas sobre por que razão as pessoas ficam, ou saem, de uma relação.

O modelo resume o compromisso a três ingredientes:

O comprometimento cresce quando a satisfação e o investimento são altos e as alternativas parecem pouco atrativas, e é esse comprometimento, mais do que a satisfação sozinha, que prevê melhor se um casal se mantém unido a longo prazo. Isto explica também porque é que relações com muito investido custam tanto a terminar, mesmo quando já não são satisfatórias, e porque é que comprometimento e apego seguro costumam andar de mãos dadas, tema que a categoria de conexão da Agapone explora com mais profundidade.

Os padrões que corroem uma relação

Se o comprometimento e o apreço ajudam a prever quem fica satisfeito, há também um lado oposto, bem documentado: os padrões de comunicação que corroem uma relação por dentro. O psicólogo John Gottman passou décadas a observar casais em laboratório e identificou quatro comportamentos que, quando se instalam sem contraponto, se associam a maior risco de rutura. Ficaram conhecidos como os "quatro cavaleiros".

PadrãoEm que consisteAntídoto
CríticaAtacar o caráter do outro em vez do comportamento concretoFalar da tua necessidade, sem generalizar ("sinto falta de... " em vez de "tu nunca...")
DesprezoSarcasmo, desdém, tratar o outro como inferiorCultivar apreço e reconhecimento no dia a dia
DefesaJustificar-se ou devolver a acusação em vez de ouvirAssumir a tua parte de responsabilidade, mesmo que pequena
Bloqueio (stonewalling)Fechar-se, desligar-se da conversaFazer uma pausa e regressar quando acalmares

Do conjunto, o desprezo é o que a investigação de Gottman aponta como o mais corrosivo. Ao contrário da crítica ou do desacordo, que ainda tratam o outro como um igual, o desprezo comunica superioridade, e é isso que mais destrói a confiança ao longo do tempo. Vale referir que os números de precisão de previsão que às vezes circulam a propósito deste trabalho têm sido questionados por estatísticos, mas o núcleo da observação, de que estes quatro padrões se associam a relações mais infelizes e a maior risco de separação, tem resistido bem a réplicas noutros laboratórios.

Então a compatibilidade não conta nada?

Conta, mas não da forma como costuma ser vendida. Há duas coisas que ajudam de facto, e que ficam frequentemente escondidas atrás da palavra "compatibilidade":

  1. Alinhamento de valores fundamentais. Não é preciso gostar das mesmas séries, mas divergências grandes sobre coisas como querer ou não filhos, o papel do dinheiro ou o peso da família tendem a gerar atrito persistente, porque não são negociáveis da mesma forma que um gosto.
  2. Regulação emocional própria. A forma como cada pessoa lida com o stress e o conflito, mais do que a personalidade em si, molda o clima do casal. Duas pessoas calmas sob pressão discutem de outra maneira do que duas pessoas que escalam facilmente.

O resto, os traços que "combinam", os interesses partilhados, o tipo de personalidade, funciona mais como pano de fundo agradável do que como alicerce. É bom ter, mas não é o que decide se a relação dura.

Como olhar para a tua própria relação

Se queres avaliar uma relação com mais lucidez do que uma lista de critérios permite, estas perguntas aproximam-se mais do que a ciência mostra que importa:

Nenhuma destas respostas se lê num teste de afinidade rápido. Exige olhar para a relação como ela é, não como gostarias que fosse, e para isso ajuda primeiro conheceres-te bem a ti, os teus padrões, o que precisas para te sentires seguro, como reages sob stress. É esse o ponto de partida que a categoria relacional da Agapone trabalha, cruzando o teu perfil com o de quem conheces, em vez de reduzir tudo a uma percentagem.

Para levar contigo

Compatibilidade não é um encaixe de traços que se verifica à partida, é algo que se constrói, ou não, no dia a dia de uma relação. O que prevê melhor se um casal dura não são as semelhanças de personalidade, é o comprometimento sentido, o apreço mútuo e a forma como lidam com o conflito. Os traços que trazes contigo importam menos do que aquilo que os dois fazem um pelo outro depois de estarem juntos.

Perguntas frequentes

O que realmente prevê uma relação duradoura?

Segundo o maior estudo até hoje sobre o tema (Joel et al., 2020, PNAS, com mais de 11 mil casais), o que mais pesa são variáveis específicas da relação: o comprometimento percebido do parceiro, o apreço mútuo, a satisfação sexual e o nível de conflito. As características individuais de cada pessoa, como a personalidade, explicam muito pouco da satisfação do casal.

A personalidade compatível não importa nada?

Importa menos do que se costuma pensar. Grandes estudos mostram que a personalidade de cada pessoa explica apenas uma fração residual da satisfação relacional. O que pesa mais é como a relação é vivida no dia a dia, não como os traços encaixam no papel.

O que são os "quatro cavaleiros" de Gottman?

São quatro padrões de comunicação associados a maior risco de rutura numa relação: crítica ao caráter do outro, desprezo, defesa perante o que o parceiro diz e bloqueio (fechar-se à conversa). O desprezo é apontado como o mais destrutivo dos quatro.

Como sei se a minha relação é compatível?

Repara se sentes comprometimento e apreço com regularidade, como lidam os dois com o conflito, e se os valores que não são negociáveis para ti, como filhos, dinheiro ou família, estão alinhados. Estas perguntas dizem mais sobre a relação do que qualquer teste de afinidade rápido.

O que é o modelo de investimento de Rusbult?

É uma teoria que explica o comprometimento numa relação como o resultado de três fatores: a satisfação que sentes, o que já investiste (tempo, emoção, vida partilhada) e como avalias as alternativas fora da relação. Quanto mais alto o comprometimento resultante, mais provável é que a relação se mantenha, mesmo em alturas difíceis.


A Agapone parte da ideia de que conhecer-te bem vem primeiro, e conhecer alguém compatível é a consequência, não o ponto de partida. Se queres perceber o que realmente moldaria a tua compatibilidade com outra pessoa, visita a Agapone e explora o teu perfil.

30 de julho de 20267 min de leitura

Estilos de apego: os 4 tipos e como moldam as tuas relações

Os quatro estilos de apego explicados, de onde vêm segundo Bowlby e Ainsworth, como moldam as relações adultas e se é possível mudar de estilo.

29 de julho de 20267 min de leitura

As 5 linguagens do amor: quais são e como descobrir a tua

As cinco linguagens do amor de Gary Chapman explicadas, o que a ciência diz sobre o modelo e como usá-lo para comunicar melhor na tua relação.

28 de julho de 20267 min de leitura

Introvertido e extrovertido: mitos, ciência e diferenças

O que significam introversão e extroversão, os mitos mais comuns, o que a ciência diz sobre o espectro e como isso afeta as tuas relações.